9 de mar. de 2008

Amar


Hoje resolvi premiar meus visitantes com um poema de Carlos Drumond que eu amo, um dos meus preferidos.


Que pode uma criatura senão,entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,amar, desamar, amar?sempre, e até de olhos vidrados, amar?Que pode, pergunto, o ser amoroso,sozinho, em rotação universal, senãorodar também, e amar?amar o que o mar traz à praia,o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,o que é entrega ou adoração expectante,e amar o inóspito, o áspero,um vaso sem flor, um chão de ferro,e o peito inerte, e a rua vista em sonho,e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,doação ilimitada a uma completa ingratidão,e na concha vazia do amor à procura medrosa,paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,e na secura nossa, amar a água implícita,e o beijo tácito, e a sede infinita.


(Carlos Drummond de Andrade)

Um comentário:

Danii Gomes disse...

"Façamos, vamos amar"

Bjs!