26 de abr. de 2008

Um pouco de Nietzsche

Esse trecho foi retirado do livro Humano, Demasiado Humano de Nietzsche. Trecho que eu gosto muito, pois de certa maneira me identifico um pouco com aquele ser questionador, instigante, que provocava nas mentes sociais um ar de dúvidas e inquietações.

"Chamaram meus livros de uma escola da suspeita, mas ainda, do desprezo, felizmente também da coragem, até da temeridade. De fato, eu próprio não creio que jamais alguém tenha olhado para o mundo com uma suspeita tão profunda, e não apenas como ocasional advogado do diabo, mas também, para falar em termos teológicos, como inimigo e provocador de Deus; e quem haveria de adivinhar alguma coisa das conseqüências que toda suspeita profunda traz em si, alguma coisa dos calafrios e das angústias da solidão, a que toda incondicional diferença de visão condena aquele que dela é acometido, haveria de compreender também quantas vezes eu, para me repousar de mim mesmo e quase para me esquecer a mim mesmo momentaneamente, procurei colocar-me ao abrigo em qualquer outro lugar - num respeito qualquer ou hostilidade ou ciência ou frivolidade ou tolice; também porque, quando não encontrava aquilo de que precisava, tive de procurá-lo para mim próprio com engenhosidade, falsificando-o devidamente, inventando-o devidamente (e que outra coisa jamais fizeram os poetas? e para que serviria toda a arte do deste mundo?)

Ora, aquilo de que eu mais precisava sempre, para minha cura e meu auto-estabelecimento, era a convicção de que não era o único a me comportar assim, a ver desse modo - um mágico pressentimento de afinidade e de igualdade no olhar e no desejo, um descanso na confiança da amizade, uma cegueira a dois sem suspeita e sem pontos de interrogação, uma alegria tomada nos primeiros planos, na superfície, no próximo, no vizinho, em tudo aquilo que tem cor, pele e aparência.

(...) Basta eu estar vivo ainda; e a vida, além do mais, não é uma invenção da moral: ela quer ilusão, ela vive da ilusão"

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